A espera

Enquanto aguardava meu vôo para Londres, de canto de olho, dei uma lida no jornal do senhor ao meu lado. Uns 70 anos, óculos de hastes grossas marrons com borda inferior transparentes, cabelo liso na altura das orelhas e grisalho, uns 85% brancos. Camisa azul com riscos finos na vertical e horizontal, formando quadrados de cerca de 1,5 cm. Calça de brim bege. Sapato de bico redondo e sola grossa. Me lembrava os sapatos de quem trabalha em centros de distribuição ou com cargas. A capa do The Times dizia: Hapiness is doing better than your parents (if you are a man). A felicidade é ir além dos seus pais (se você for um homem).

Aquele título me intrigou. Não tive cara de pau de interrompê-lo e pedir o jornal emprestado. Pensei em esperá-lo embarcar e ver se ele deixaria o jornal para trás. Minha pressa é sempre maior que minha curiosidade. Ao anunciarem o embarque do voo, esqueci da matéria e parti em direção a fila.

Meu marido sempre diz que tenho tendência a complicar as coisas. Que teorizo demais. É, realmente a felicidade pode ser simples e fácil. A melhor parte… if you are a man (se você for homem). Dias depois fui procurar e ler a matéria. A fonte é um estudo de Oxford. Foram entrevistadas 52.773 pessoas entre 25 e 56 anos, em 28 países diferentes, incluindo a Inglaterra, de onde o jornal é oriundo. As conclusões são de que homens que apenas terminaram o ensino secundário e que isso fosse superior ou equivalente aos estudos de seus pais são duas vezes mais propensos a estar entre os 10% mais estressados. Enquanto homens com ensino superior cujos pais terminaram o ensino secundário são 50% menos prováveis de estar estressados. O nível de estresse analisado equivaleria ao estresse do divórcio. As mulheres não eram afetadas pela expectativa da sua educação em relação a dos seus pais. A conclusão do pesquisador responsável, Alexi Gugushvili, “A razão para isso pode ser que os homens são mais propensos do que as mulheres a atribuir sucesso e fracasso apontando para seus próprios méritos, habilidades e esforços, em vez de fatores sobre os quais não têm controle”.

Não farei nenhum juízo de valor sobre a pesquisa e suas conclusões. Permito-me não manifestar minha opinião. Mas será que aquele senhor atingira a felicidade? Seria ele mais bem-sucedido que seus pais? Chances são grandes que sim, ou pelo menos gosto de pensar assim. Um inglês viajando para o Brasil de avião… Ficará a eterna dúvida, a eterna espera.

 

Fonte:

https://www.thetimes.co.uk/article/happiness-is-doing-better-than-your-parents-if-you-re-a-man-tshrgt5wk

 

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