
Dia 2 de maio completei oficialmente o primeiro mês do meu sabático. Fiz várias coisas de que gostaria. Porém, como uma amiga havia me antecipado, desacelerar é a parte mais difícil. Assim foi para mim: praticamente não fiquei nenhum dia inteirinho em casa.
Fiz tanta coisa que me cansei só de relembrar. O sabático começou com um almoço de despedida do time da Yandeh. Detesto despedidas, até porque acredito que a única despedida que temos na vida é a morte. De qualquer forma e com muito carinho eles me aprontaram uma no dia da comemoração dos aniversariantes do mês, na minha ultima semana de trabalho. E já que estava na chuva e tinha me molhado, marcamos o almoço.

Optei por um sabático de experiências, por isso estava aberta a convites e eventos que aparecessem. A convite de um grupo do qual participo, que fui pela primeira vez a SPArte. Me questionei porque não havia feito isso antes. Vergonha ter um tio artista, o Julio Villani, e nunca ter ido. Dentro do Parque Ibirapuera e no imponente pavilhão Cecílio Maratazzo, projetado por Oscar Niemeyer, cerca de 140 galerias nacionais e internacionais instalam suas obras de arte moderna e contemporânea e recebem visitantes. Criada em 2005, a SPArte colocou o Brasil no cenário internacional das artes e ajudou a projetar vários de nossos artistas e galerias. Se você gosta ou se interessa por arte é uma experiência que vale a pena. A chance de, sem sair de São Paulo, percorrer várias galerias e conhecer artistas nacionais e internacionais em um único dia.

Naquele mesmo dia, porém a noite, viajei para Londres. Essa viagem já fazia parte dos meus planos. Uma vez que a rotina de filhos e escola não me permite me ausentar por muito tempo, aproveitei uma viagem de trabalho do Beto para curtir uns dias a sós com ele. Foram momentos deliciosos. No táxi para o hotel me apaixonei por uma escultura numa praça do bairro de Mayfair. No topo de um globo feito como se fosse quebra-cabeças dois corpos de homem e mulher se equilibravam. O globo, por sua vez, era sustentado por quarto círculos de diferentes materiais.
No dia seguinte, sozinha, andei sem rumo pela cidade e finalizei a caminhada na praça. Precisava entender o significado e saber de quem era aquela escultura. Numa placa de metal em sua base li seu nome e do artista que a criara, Four Loves por Lorenzo Quinn. Havia também a seguinte explicação. A primeira pedra, de bronze polido para parecer pura, representa a fé e a afeição. A segunda, de pedra vermelha, a paixão e o amor. A terceira, a amizade, de aço polido porque você está refletido nos seus próprios amigos. Finalmente, a última evoca a família, e é de madeira, um material quente, orgânico e expansivo.
Dois dias depois, num domingo frio e chuvoso, decidimos conhecer em detalhes a loja Harrods. Nem eu nem o Beto gostamos de comprar, por isso das outras vezes que passamos por Londres visitamos na Harrods apenas o Food Court, que é o pavilhão de comida, maravilhoso, e o térreo, que na verdade é passagem obrigatória para o Food Court. Dessa vez, decidimos percorrer cada um dos seus 6 andares. Seria uma visita arquitetônica e de certa forma antropológica.
Observamos detalhes do prédio e as diferenças entre os andares e seus diferentes produtos. Mas nossa maior surpresa foi a Halcyon Gallery, uma galeria de arte situada no segundo andar, que encontramos por acaso. E entre Mirós e Picassos, lá estavam varias escultoras do Lorenzo Quinn. O galerista, um espanhol alto, magro e bem vestido, provavelmente percebendo minha empolgação e encantamento, veio nos atender. Me contou toda história do artista. O que mais me surpreendeu foi a forma que ele cria. A partir de uma poesia, da origem a suas esculturas. Passamos certamente mais de uma hora ali. Ao final ainda ganhamos um livro, Artline, a coletânea do trabalho de Lorenzo Quinn.

No terceiro andar, o de móveis e objetos para a casa, também há outra galeria mais moderna, a Millionaire Gallery, com objetos de artistas de Hollywood e esportistas, tais como guitarras e luvas de boxe. Já no 4º andar paramos para um café no Mezzah Lounge. Apesar do frio nos sentamos na parte externa. A vista das dos telhados e janelas me lembrou quando Peter Pan voava por Londres e entrava no quarto das crianças pela janela. Finalmente entendi porque a Harrods está na lista de lugares para se visitar em Londres. Pode ser muito mais que uma loja de departamentos, a depender do seu espirito e olhar.
Além de Londres viajei para Marília onde comemoramos o aniversario do meu irmão e da Malu, esposa do meu pai. Busquei meus filhos na escola e os recebi na perua. Encontrei alguns dos meus amigos. Estive com vários empreendedores. Passei alguns dias na Yandeh e com clientes. Terminei de ler o livro a Second Chance. Sofri com meu texto da Austrália. Fiz o imposto de renda meu e do meu marido. Eu quem faço, desde sempre. E adoro. Fiz algumas aulas dos meus cursos, menos do que imaginei. Também li e escrevi menos do que planejei. Dei entrada na abertura da minha empresa. Eita, burocracia chata. Vendi meu carro. Oba, mais uma parte do financiamento do meu sabático resolvido. Arrumei um outro cão. Uma mini pinscher com menos de um kilo preta e marrom. Na verdade, minha mãe arrumou e não quis ficar com a bichinha. Como em casa somos todos fanáticos por bichos, ela ficou por aqui. Foi muito bacana fazer uma reunião de família com as crianças para decidir e definir as responsabilidades de cada um com a pulguinha.
Tive dias felizes e dias que questionava minha decisão. Dias calada. Dias animada. Observei a reação das pessoas ao meu momento. Umas respeitam, outras questionam. Algumas têm inveja, outras pena. Tudo isso somado a decisão em si gera um turbilhão de emoções. Acho que essa é a melhor definição para esse primeiro mês. Felicidade, tristeza, medo, esperança, tudo junto e misturado.
Sabático de um mês não existe, é férias. Acho que por isso recomendam pelo menos 3 meses. Um mês para se conscientizar e desacelerar, outro para aproveitar e o último para voltar a trabalhar. E que venham os próximos… Até mais!
Para saber mais:
https://www.halcyongallery.com/galleries/harrods

Nunca pensei que iria ler algo sobre a vida em momento de sabática, apesar de saber, acho que muito bem, o que significa isso em termos acadêmicos. Acontece que estou presente nessa história, ainda que indiretamente. Para o tempo profissional, de vez em quando, é necessário. Sem esta pausa o tempo no engole e nos difere sem tempo pra mais conversas. Precisamos sempre de um gole d’água quando a garganta seca, sem o que é impossível continuar a engolir. A metáfora é estranha mas cabe bem no contexto. A vida é fluida e tende a percorrer caminhos por demais estreitos, quase sempre. Ninguém melhor que a própria pessoa para entender essa questão . Quem olha torto para este tipo de atitude ou nunca ficou com a garganta seca ou flutua no próprio tempo, nunca mergulhou fundo no próprio universo !
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